Você tem esse péssimo hábito de continuar aqui depois que vai embora.
Não inteiro, claro.
Ficam restos.
Um cheiro na roupa.
Uma pressão na cintura.
A lembrança da sua boca com uma precisão quase ofensiva.
E eu sigo o dia carregando pequenas provas de um crime que ninguém cometeu.
É curioso o que o desejo faz com a memória.
Ela deixa de lembrar em ordem.
Recorta.
Amplia.
Guarda coisas inúteis: o jeito que você respirou antes de me beijar, o intervalo entre uma frase e outra, a sua mão parada por um segundo onde não deveria causar tanto estrago.
Depois devolve tudo sem aviso.
No metrô.
No meio de uma reunião.
Enquanto a água ferve.
Como se meu corpo tivesse criado um arquivo próprio e se recusasse a me dar a senha.
Você aparece assim.
Por associação.
Por acidente.
Às vezes por pura falta de vergonha.
E não é exatamente saudade.
Saudade é uma palavra comportada demais.
O que eu sinto tem dentes.
Morde de leve primeiro.
Depois aperta.
É uma vontade que começa pequena e vai ocupando espaço, como vinho derramado numa toalha branca: por mais que eu finja não ver, já chegou longe demais.
Talvez por isso eu goste tanto do instante antes.
Antes do beijo.
Antes da mão no meu pescoço.
Antes de qualquer certeza.
Aquele segundo em que ainda não aconteceu nada e, ao mesmo tempo, já aconteceu tudo.
Você chega perto e o ar muda de densidade.
Eu poderia jurar.
Os sons ficam mais longe.
A conversa perde importância.
Meu corpo começa a tomar decisões sem convocar reunião.
E eu, que normalmente gosto tanto de entender as coisas, viro uma péssima investigadora.
Não quero saber por quê.
Quero saber quanto falta.
Quanto falta para você me encostar.
Quanto falta para eu parar de fingir que não estou esperando.
Quanto falta para aquela distância ridícula entre nós deixar de existir.
Talvez desejo seja justamente essa medida.
Não a distância entre dois corpos.
A distância entre o que ainda não aconteceu e aquilo que os dois já sabem.
E você sabe.
Esse é outro problema.
Sabe quando olha.
Sabe quando demora.
Sabe quando chega perto o suficiente para me fazer esquecer o que eu estava dizendo e longe o suficiente para me obrigar a lembrar.
É quase uma provocação matemática.
Só que eu nunca fui boa em calcular quando você está por perto.
Eu erro a distância.
Eu erro o tempo.
Eu erro, sobretudo, essa mania de achar que vou conseguir sair ilesa.
Porque depois vem o resto.
E o resto é sempre mais perigoso.
Não o corpo sobre o corpo.
Isso passa.
O perigo está no corpo depois.
Na pele ainda desperta.
Na cama grande demais.
Na vontade absurda de procurar, de olhos fechados, exatamente o lugar onde você estava.
É aí que percebo.
Desejo não é só querer tocar.
É quando você vai embora
e o meu corpo continua com a porta aberta.
Comentários
Postar um comentário