Ver no que dá

Existe uma fase da vida em que a gente não sabe muito bem se está em paz ou se apenas cansou de dramatizar com a mesma competência de antes.

Eu tenho pensado nisso.

Não com a solenidade de quem descobre uma grande verdade interior <<Deus me livre, já basta o LinkedIn>>, mas com aquela curiosidade meio desconfiada de quem olha para a própria rotina e pensa: “ué, será que é isso?”.

Trabalhar, fazer mercado, responder mensagem, lavar o cabelo (sim, pra mulher sempre é um evento), pagar conta, marcar terapia, esquecer de descongelar o frango, lembrar de beber água, falhar miseravelmente em algum desses itens, talvez em vários, e seguir.

A vida adulta, no fundo, talvez seja esse eterno revezamento entre administrar o caos e fingir que era exatamente esse o plano.

E, de alguma maneira estranha, eu tenho gostado.

Não o tempo todo. Não vamos romantizar. Ainda existem dias em que uma mensagem sem ponto final vira estudo de caso, uma fala atravessada reativa trauma de infância, um silêncio vira tese, e um casinho europeu de bigode vira praticamente uma investigação da Interpol.

Mas há algo diferente ultimamente.

A gente estranha quando o caos e os incêndios deixam de ser rotina. Porque o sofrimento, quando dura muito, organiza. Dá função. Dá identidade. A pessoa ferida sabe o que fazer: vigia, calcula, antecipa, se defende.

Já a pessoa que começa a ficar bem precisa inventar outra forma de estar no mundo.

E isso dá trabalho. Quase dá saudade do caos, se o caos não fosse tão cafona. <<Sim, você que exalta seu caos como virtude, LO SIENTO, você é cafona>>

Mas calma também. Não acho que eu esteja vivendo uma grande virada. Não confio muito nessas narrativas com arco dramático perfeito. Na vida real, a gente muda e ainda repete antigos padroes. Entende e ainda insiste. Supera e ainda stalkeia. Se conscientiza e ainda manda print para uma amiga perguntando: “mas você acha que isso quer dizer o quê?”.

A maturidade talvez não seja parar de fazer essas coisas.

Talvez seja apenas rir antes, durante ou depois.

E quando não rola, seguir tentando.

Acho que está aí. Continuo sendo uma pessoa que tenta. E tentar, hoje, já me parece bastante sofisticado.

Tentar não voltar para certas versões de mim.

Tentar não confundir intensidade com amor.

Tentar não transformar toda ausência em abandono.

Tentar não pedir desculpas por ocupar espaço, gastar dinheiro, sentir prazer, querer mais.

Tentar ficar do meu lado sem fazer disso um manifesto.

Há também o luto, que é uma presença sem corpo.

Ele não aparece sempre como choro. Às vezes aparece como um objeto que ainda não saiu do lugar. Uma caminha na sala. O barulho do avião no céu. Um gesto automático que perdeu destinatário. Uma saudade que não faz barulho, mas altera a acústica da casa inteira.

E talvez por isso qualquer alegria recente venha com uma espécie de pudor. Como se fosse preciso pedir licença à tristeza antes de rir.

Mas a vida, inconveniente como sempre, continua se oferecendo.

Não de forma grandiosa. Ela vem pequena: um encontro, uma conversa, um banho depois de um dia longo, um dia de sol, uma rua bonita, um corpo que responde, uma noite sem catástrofe, uma vontade de ver no que dá.

E “ver no que dá” é uma frase subestimada.

Durante muito tempo eu quis garantias. Hoje, em alguns dias, aceito ensaios.

Isso não é pouco.

Talvez o momento atual seja esse: não uma chegada, mas uma remanejada para encaixar como dá. Um jeito menos violento de existir dentro da própria história. Um entendimento de que nem tudo que me protegeu precisa continuar comandando a casa.

Algumas defesas podem se aposentar. Outras, claro, seguem trabalhando meio período, porque ninguém aqui ficou boba.

No fim, talvez crescer seja isso: continuar sensível, mas não completamente refém da própria sensibilidade. Continuar intensa, mas sem transformar cada detalhe em sentença. Continuar desejando, mas sem entregar a chave da casa para qualquer promessa bem formulada.

Estar viva, afinal, é um negócio muito menos elegante do que parece nos livros.

Tem boleto, espinha no nariz, reunião, cabelo sujo, saudade, tesão, cansaço, planilha, fome, esperança e um medo ocasional de estar fazendo tudo errado.

Mas tem também essa coisa rara: uma mulher se percebendo de novo.

Não pronta.

Não curada.

Não plena.

Interessada.

Presente.

E talvez, por enquanto, isso baste. Vamos ver no que dá.


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